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quarta-feira, 23 de março de 2011

Fenomenologia do olhar.

A matéria prima da visão é a imagem. Esta palavra tem origem latina, significa representação / imitação/ retrato/ representação do pensamento.
O olho está diretamente ligado ao cérebro. Há teorias que tentam provar que o olho é extensão do cérebro, ou que o cérebro se formou a partir do olho. De qualquer forma, a frontalidade dos olhos no rosto humano remete à centralidade do cérebro.
Segundo Bispo Berkeley, na obra “Nova teoria da visão”:
“Teoria da visão: o mundo tal como vemos, é uma construção, erigida lentamente por todos nós, em ano após ano de experimentação. Nossos olhos só recebem estímulos na retina que resultam nas chamadas “sensações de cor”. É a nossa mente que elabora essas sensações em percepções, que são os elementos da nossa visão consciente do mundo – fundada na experiência, no conhecimento.” (Bispo Berkeley, apud GOMBRICH, 1995, página 315)
A teoria de Berkeley, entretanto, é contestada por Gombrich com base no caráter indissolúvel da associação entre sensação e percepção:
“Embora aceitemos muito do que diz Berkeley, devemos duvidar de que tal proeza de inocente passividade seja possível à mente humana. Sempre que recebemos uma impressão visual, reagimos colocando-lhe um rótulo, arquivando-a, classificando-a de um modo ou de outro, mesmo que se trate apenas de um borrão de tinta ou de uma impressão digital. (...) Porque ver não é apenas registrar. É uma reação de todo o organismo à luz que estimula o fundo do olho. De fato, a retina foi recentemente descrita por J. J. Gibson como um órgão que não reage a estímulos luminosos individuais, tal como postulado por Berkeley, mas às suas relações ou gradientes. (...) A distinção entre a sensação e a percepção, plausível como parecia, teve de ser abandonada em face da evidência de experiências feitas com seres humanos e animais. Ninguém jamais viu uma sensação visual, nem mesmo os impressionistas, por mais engenhosamente que espreitassem sua presa.” (GOMBRICH, 1995, página 316)

Alguns teóricos, como Zamboni e Smith, dizem que primeiramente olhamos para depois chegarmos ao ato de ver. Geralmente olha-se sem ver, devido ao fato de que em nosso cotidiano não temos tempo de absorver e realizar um ato de leitura e reflexão. Como diz Zamboni:
 “O ver não diz respeito somente à questão física de um objeto ser focalizado pelo olho, o ver em sentido mais amplo requer um grau de profundidade muito maior, porque o indivíduo tem, antes de tudo, de perceber o objeto em suas relações com o sistema simbólico que lhe dá significado”. (Zamboni apud BARBOSA , 2002 , p.69)

Só conseguimos ver aquilo que nos é significativo. Isso relaciona-se ao sentido que estabelecemos entre nossas experiências e o que estamos vendo. Precisamos decodificar os signos e compreender a sua relação em um determinado contexto socio-cultural, juntamente com o conhecimento do leitor.  Enfim, o olhar de cada um possui diferenças, e estas estão ligadas às suas vivências anteriores, assim o que se vê não é o dado real e sim o que se consegue captar e interpretar como significativo. Ocorrem assim, variadas formas de olhar uma mesma situação.
“Para os Gregos e Romanos, existiam dois olhares: o receptivo e o ativo, enfim o ver por ver sem o ato intencional do olhar e o ver como resultado obtido a partir de um olhar ativo.” (BOSI, 1993)
Podemos perceber que os verbos “ver” e “olhar” são associados aleatoriamente a significados fixos. Essa questão de semântica não altera nosso estudo, o qual denominará deste ponto em diante o “olhar” como ato intencional.
O Olhar:
Do ponto de vista etimológico:
1.      Eidos ou Idea  = Forma ou figura; Video = eu vejo; Os etimologistas encontram na palavra historia (grega e latina) o mesmo étimo id, que está em eidos e idea. A história é uma visão-pensamento do que aconteceu.

Do ponto de vista literal:
2.      Ver e olhar são palavras que expressam idéias diferentes
3.      Em português: Ver = ato de registrar uma cena ou objeto; 
              Olhar: Ver com intencionalidade
4.      Em inglês: See = ver; Look = olhar
5.      Em espanhol: Ojear = ver; Mirar = olhar
6.      Em frances: Voir = ver; Regarder = Olhar
7.      Em italiano: Occhio = olho, visão; Sguardo = Olhar, olhada

Do ponto de vista metafórico:
O olhar filosófico envolve a capacidade de sentir admiração, é parecido com o olhar infantil, que é curioso e desprendido de preconceitos. “Para praticar o olhar filosófico é preciso muita paciência, e o mundo que vivemos hoje, acelerado e repleto de informações, está fazendo com que percamos essa capacidade , pois o olhar filosófico é lento, não tem pressa, pois sabe que é essencial ater-se aos detalhes” (FEITOSA, 2004)
Na Renascença o objetivo do olhar era a perspectiva, o artista deveria aprender a olhar de perto e de longe.
“O olho, janela da alma, é o principal órgão  pelo qual o entendimento pode obter a mais completa e magnífica visão dos trabalhos infinitos da natureza. Visão e entendimento estão aqui em estreitíssima relação: o olho é a mediação que conduz a alma ao mundo e traz o mundo à alma. Mas não é só o olho que vê, o entendimento, valendo-se do olho, obtém a mais completa e magnifica visão”. (BOSI, 1993)
O olhar antropológico é aquele que requer um distanciamento do objeto de estudo, não sendo influenciado pelo mesmo. Neste caso, a visão do outro é aceita sem contestação. É preciso observar ou olhar com empatia e sem preconceito.
O olhar cartesiano: “Para o código racionalista só há uma visão verdadeira, uma intuição certeira , a razão só vê o que ela mesma produz segundo seu próprio desígnio.” Ciência = um olhar que examina, analisa, compara.
O olhar como expressão: esse novo olhar é o que exprime e reconhece – fruição. Percepção do outro. Podemos citar como exemplo o dito popular "Comer com os olhos", que denota foco total de atenção para o outro, ou para um objeto, assimilando-o em sua plenitude.
“O olhar expressivo que une mente e coração, corpo e alma, olhos e mãos tornou possível o gesto da arte.”
“O ser humano é por natureza um ser criativo. No ato de perceber, ele tenta interpretar e, nesse interpretar, já começa a criar. Não existe um momento de compreensão que não seja ao mesmo tempo criação. Isto se traduz na linguagem artística de uma maneira extraordinariamente simples, embora os conteúdos sejam complexos.” (Fayga Ostrower, in BOSI, 1993, página 167)
Olhar e ser olhado, atividade e passividade, exercem-se em um campo de forças onde o poder e o conhecer se fundam mutuamente. O outro é uma liberdade que pode invadir a minha; logo o outro existe. O olhar é a expressão mesma desse poder.”
“Olhar não é apenas dirigir os olhos para perceber o “real” fora de nós. É , tantas vezes, sinônimo de cuidar, zelar, guardar, ações que trazem o outro para a esfera dos cuidados do sujeito: olhar por uma criança. (...) As vezes a expressão do olhar fala por si, sem a necessidade do ato, por exemplo: Meu pai não precisava dizer nada para a gente obedecer. Bastava um olhar.” (BOSI, 1993).

Devemos ter em mente que “ver coisas opera com uma intencionalidade que não é a mesma com que se vêem pessoas.”

Outros olhares:

Contemplar é olhar religiosamente

“Nem todo olhar possui a capacidade de contemplar. E qual a atividade própria da contemplação? Lembrar. A visão cristã está na contemplação da divindade , que está no céu, no meio de nós e dentro de vós.” (BOSI, 1993)

Considerar é olhar com maravilha.

Respeitar é olhar para trás ( ou olhar de novo).

Admirar é olhar com encanto.


A educação pelo olhar: Simone Weil e a filosofia da atenção
·          Simone Weil é a filósofa da atenção: primeiro, como atividade superior da mente; depois, como princípio estratégico para lutar contra a máquina social, o platônico “Grande Animal”
·          O que significa atenção para Simone Weil? “O método para compreender os fenômenos seria: não tentar interpretá-los mas olhá-los até que jorre a luz. Em geral, método de exercer a inteligência que consiste em olhar. (...) A condição é que a atenção seja um olhar e não um apego. (WEIL, 1950, p. 388)
·          Simone era operária da Renault, e observou a divisão rígida e crescente do trabalho mecânico X intelectual / dirigido X dirigente. Ela sonhava com uma sociedade onde meios inteligentes de produção supririam a sociedade livre para o exercício da inteligência, uma “democracia socialista”
·          O texto de Bosi menciona 4 dimensões estruturais no pensamento de Simone Weil:
  • Perseverança: A atenção deve enfrentar e vencer a angústia da pressa
  • Despojamento: A atenção é uma escolha, logo uma ascese. Quem prefere, pretere. A atenção tudo sacrifica para ver e saber
  • Trabalho: a atenção é um “olhar que age”. A relativização do cartesianismo em Simone Weil se faz através da construção de uma ponte entre a consciência e a ação eficaz.
  • Contradição: “Não há contradições no imaginário. A contradição experimentada até o fundo do ser é o dilaceramento, é a cruz. Quando a atenção fixada em uma coisa revela, nesta, a contradição, produz-se algo como um descolamento. Perseverando nesta via, chega-se ao despojamento” (Sinone Weil, apud BOSI, 1993)
BIBLIOGRAFIA
  1. GOMBRICH, E. H. Arte e Ilusão – O estudo da psicologia da representação Pictórica. 3° Edição. São Paulo: Martins Fontes, 1995
  2. MARTINS, M. et all. Didática do ensino de arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998
  3. BOSI, A. Fenomenologia do olhar. In A. Novaes (Org.), O olhar (pp. 65-87). São Paulo: Companhia das Letras, 1993
  4. BARBOSA, Ana Mae . A Imagem no Ensino da Arte. São Paulo: Perspectiva, 2002.
  5. FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com Arte. Rio de Janeiro:Ediouro, 2004
  6. WEIL, S. Attente de Dieu. Paris: La Colombe, 1950

segunda-feira, 14 de março de 2011

Arte não é diversão.

Indico tanto o artigo , quanto o blog, vale a pena! Basta clicar no link abaixo.
*EDUCABLOG: A INTENÇÃO COMUNICATIVA DO TEXTO ARTÍSTICO: "Uma sociedade imediatista e de consumo tende a destruir aquilo em que toca e esse é, para a filósofa Hannah Arendt, o grande perigo atual da..."

quarta-feira, 9 de março de 2011

Afinal ...

O que é arte?
A relatividade da beleza.

De quantas ações  com intenção estética é feita a vida? 
As roupas que escolhemos para nos cobrir, nosso penteado e nossa gestualidade não expressam nosso estado de espírito e a imagem que queremos vestir publicamente?  E a maquiagem, o andar e o olhar não servem de máscaras que, escondendo e disfarçando, revelam uma maneira peculiar de nos colocarmos no mundo?
De quantas decisões de caráter estético são feitas as mais simples escolhas? A cor que nos identifica, o balanço do corpo com que nos locomovemos, a música que embala nossos sonhos, a entonação que damos à voz quando queremos nos aproximar de alguém, a maneira como desfilamos por entre as pessoas, tudo isso constitui um mundo de significados e símbolos estéticos  que possibilitam a expressão de mil mensagens que trazemos dentro de nós.
Assim, somos uma fonte inesgotável de sentidos estéticos, tão inerentes à nossa identidade como o nome de nascimento. De forma tão instintiva como respiramos, vamos organizando, desde o nascimento, uma maneira própria de perceber e apreciar o mundo, através da descoberta contínua e permanente de suas propriedades estéticas.
A arte penetra em nós através da porta da sensibilidade, mantendo aberto esse canal com nossa natureza mais instintiva e profunda. A cada momento de arte nos tornamos mais aptos à captação da beleza do mundo e de seus significados.
É fonte inesgotável de interpretação e sentido. E, mesmo mantendo laços estreitos com seu tempo e seu espaço, a arte atravessa a história e se apresenta virgem a novas interpretações.
Ela registra tudo o que os artistas de todos os tempos quiseram comunicar e deixar inscrito em papel, pedra, pele de animais, argila, vinil ou celulose, aos seus contemporâneos e à posteridade – milhares de mensagens que constituem uma memória
Dentre as características mais importantes da arte, destacamos a emoção e o prazer que ela desperta e que alguns filósofos identificam como o prazer do belo ou prazer estético. Trata-se do prazer que sentimos ao apreciar uma música, uma pintura, uma foto, uma dança... Um prazer diferente daquele que sentimos quando dormimos bem ou comemos uma comida especial. O prazer que a arte desperta vem da forma das coisas, do som, do colorido, do ritmo, da maneira como nós percebemos essas coisas.
O que faz a gente sentir essa emoção diante de uma música e não de outra, de uma imagem e não de outra, tem a ver com o que se viveu na infância, com o que se aprendeu em casa  ou na escola.  E também com o que se é, com nosso temperamento.  Tudo isso nos faz  sensíveis a determinadas linguagens e acertas soluções plásticas, visuais ou musicais.  Isso explica por que nem todos acham as mesmas coisas belas, nem são sensíveis aos mesmos efeitos. A emoção artística depende, portanto, da sociedade em que se vive, da região, do tempo e das pessoas com quem convivemos.
Aos poucos vamos desenvolvendo uma forma própria de apreciar esteticamente o mundo que nos rodeia.
O prazer do belo depende também de nosso estado de espírito. Se estamos alegres, ficamos mais sensíveis às obras de arte que nos transmitem alegria. Se, ao contrário, estamos tristes, nos emocionamos mais com as músicas ou imagens que parecem estar sintonizadas conosco, reproduzindo nosso humor ou nossas emoções.
Algumas pessoas erroneamente pensam que só as imagens graciosas e as músicas alegres são capazes de encantar as pessoas, mas isso não é verdade. Muitas vezes uma imagem ou uma música emocionam justamente porque são fortes e violentas.
A beleza não é um valor universal, o que é belo para você  pode não ser para o outro, de outra idade, outra cultura, outro sexo ou outro temperamento. Aquilo  que o emociona num determinado dia pode  não parecer tão belo alguns dias depois, quando você  estiver em outro estado de espírito, ou tiver visto ou ouvido outras coisas. A melhor maneira de se apreciar a arte, é estar atento para o prazer que ela dá e tentar perceber o que o causa e de onde vem esse prazer.  Tornamo-nos então conscientes da beleza e daquilo com o que nos identificamos cultural e emocionalmente, isto é, tornamo-nos conscientes do nosso gosto.
A própria história da arte, procurando definir os diversos movimentos estéticos da arte ocidental, tem posto em evidência a variabilidade dos princípios estéticos e das tendências dos artistas de uma época para outra. No Renascimento os artistas procuravam resgatar valores da Antigüidade como a simetria e o equilíbrio. No Barroco, movimento seguinte, exploravam-se as curvas e o movimento.
A beleza vem também da sensação de conseguirmos ver o mundo da maneira que pensamos ter sido a intenção do artista. O belo se constitui, assim, tanto por uma emoção despertada como por sua correspondência com uma idéia transmitida.
Muita gente pensa que o belo deve necessariamente ser harmonioso, agradável, saudável e alegre. Escolas posteriores ao Classicismo, entretanto, defenderam o princípio de uma beleza que pressupõe o agressivo, a desarmonia e até o disforme. Os artistas mostraram que, muitas vezes, a desordem e o desequilíbrio são mais capazes de transmitir emoções e estimular o pensamento crítico do que as composições que procuram submeter a realidade a um ideal.
A arte e o belo não são , portanto, conceitos universais. Confie na emoção que as coisas, as paisagens, as palavras e os sons despertam em você .

Bibliografia:  Questões de Arte – o belo, a percepção estética e o fazer artístico
                       Cristina Costa